Ultimamente, eu e um certo amigo sempre conflitamos idéias dentro de um determinado assunto. Ele, biólogo. Eu, bem.. "letrista", não gosto desse termo..tá, vou ser ousada: eu, analista do discurso. Pode ser que isso não represente nada, mas como (justamente) uma analista do discurso posso dizer que faz sim, e essa diferença se materializa, é claro, no discurso. Não é só isso que distancia nossos pontos de vista, mas também toda uma formação cultural, social e ideológica que ele insiste em descartar! rss
Explico-me: ele vê o "ser humano" como um dado empírico. Ele explica (e justifica) as ações desse ser dentro de suas constituição biológica. Vontades, desejos, tudo é natural, tudo faz parte do ser humano. Logo, não devemos reprimir ou nos contranger com coisas que nos são, cientificamente, naturais. A sociedade, as culturas, tudo isso não seria "natural" e funcionam como "claustros".
O que ele chama de "ser humano", eu prefiro chamar de Sujeito. Eu não consigo ver o ser humano fora do seu construto social. Eu não vejo ser humano sem cultura, eu não vejo o ser humano sem ideologia. Eu vejo Sujeitos. Quando chegamos ao nosso "meio", somos expostos aos mais diversos discursos: da religião, da família, da escola, dos professores, dos amigos, da mídia, da imprensa, da ciência..enfim, somos rodeados de todas esses discursos fundadores. Eles ficam lá.. no inconsciente.. e vão constituindo o sujeito, a sua formação discursiva, e, consequentemente, o seu discurso. Quando dizemos algo hoje, algo já foi dito em algum momento, e ao dizer, materializamos a nossa ideologia.
Ou seja, para mim, o ser humano se constrói apenas dentro do social, dentro das culturas, das ideologias que permeiam o seu discurso. É nesse meio que ele age, constrói, destrói, faz, sente.
E isso, não é, de jeito nenhum, ruim. Isso sim, pra mim, é o natural. É o Sujeito sobre todas essas influencias, é o Sujeito que se encontra a meio a todas essas informações e se torna autor. autor de suas ações, reações. Aí, o sujeito se reconhece como um construto social e como parte dele, e não prisioneiro do mesmo.
Minhas ações são resultados da minha formação. Reconheço a diferença, e percebo como é possível várias leituras para uma determinada situação. E assim, justifico meu "constangimento" e afirmo: ele não me incomoda e não quero mudá-lo. Não vou ser mais ou menos feliz por isso.
Freud diz que um dos problemas da humanidade é a busca pela felicidade plena. Estamos sempre nesse busca..que..será que existe? Podem criticar o meu pessimismo, mas se conseguissimos encarar, friamente, que esse fucking felicidade plena não existe, seria tudo bem mais simples. Não é preciso explicar, não é preciso justificar erros. Nem chegar ao extase, nirvana, whatever.. eu erro. eu penso. eu falho.
E vai ser sempre assim.