Sempre achei genial a escolha de Kafka para o início de suas histórias. Para quem não conhece, o escritor tcheco é autor de tramas angustiantes, profundas, complexas e que sempre começam com um despertar. Desperta, e está sendo processado. Desperta, metamorfoseou-se em uma barata.O despertar, neste caso, é simbólico. Trata-se do rompimento, da transformação. É como se, antes do despertar, o mundo estivesse em sua perfeita ordem e então, no momento em que se abre os olhos, tudo mudou e é impossível voltar atrás.
Tudo se torna pior depois que despertamos...
Nos dias de tristeza, é assim. Ao abrir os olhos, a vontade é de fechá-los imediatamente e não voltar mais a abrir até que as coisas voltem a ser como antes, até que tudo passe, se encaixe novamente, até retomar a ordem natural.
Ou ainda, a vontade é de continuar no sonho, que não terminou. (eles nunca terminam) Até mesmo no escuro, no silêncio, para aqueles que não se lembram das imagens formadas pelo inconsciente. Qualquer coisa é mais aceitável do que ter que despertar. Despertar... e lembrar das palavras ditas. Despertar...e lembrar das decisões a tomar. Despertar... e encarar a realidade. Despertar... e ter que seguir adiante, quando a única vontade é enfiar novamente a cabeça no travesseiro.
Não se trata de acordar simplesmente. Nem só abrir os olhos e deixar de dormir. A dor está no despertar da consciência, quando somos obrigados a deixar o conforto do refúgio do sono e ver que esta não é vida que você queria. Não foi assim que você planejou. E que merda que as coisas são assim.
Quando há algo de doloroso em nosso coração, ao despertar, é como se tivesse acabado o efeito da anestesia. Lentamente, ao passo que o corpo retoma suas ações, vêm junto as sensações: medo, angústia, saudade, solidão, melancolia... Assim, eu só sei que estou realmente bem, plena e satisfeita, quando despertar não dói.
Gregor assume forma de uma barata. Josef K. é preso e condenado. E eu, a cada despertar, espero minha metamorfose. Eu continuo a mesma. Nada muda. E eu me pergunto: até quando?
Um pouco de mim...
- Sue Ellen
- Jaguariúna, São Paulo, Brazil
- "É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo. Ou pelo menos, o que me faz agir não é o que eu sinto mas o que eu digo." (Perto do Coração Selvagem, Clarice Lispector)
Mostrando postagens com marcador insatisfação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador insatisfação. Mostrar todas as postagens
sábado, abril 14, 2012
Assinar:
Postagens (Atom)