domingo, abril 10, 2011

Mas é só brincadeira!

Lembro que no meu primeiro ano como professora de fato, sem ser só por substituições, propus uma discussão sobre o Bullying: através de reportagens, notícias e filmes, tentei propor a adolescentes de 12 a 14 anos uma reflexão sobre esse comportamento de humilhação, perseguição e intimidação. Resultado: Primeiro argumento contra "Ah, professora, mas é brincadeira!!!!" Segundo argumento: "Mas também, a pessoa não pode ligar né? Eu sou o que sou e dane-se o que os outros pensam". Consegui perceber um ou outro olhar daqueles que entendiam do que eu estava falando, outros que queriam que isso acabasse mesmo, e a grande maioria encarava como um discurso politicamente-correto da professora- mais- careta. Com certeza, as aulas dos professores que fazem piadinha ou põe apelidos nos alunos é bem mais divertida!

Pois bem, mesmo assim, nunca desisti. Sempre que posso toco no assunto, dessa vez, de uma maneira bem menos ingênua do que no início. Sei que o bullying existe, não vai deixar de existir - infelizmente - e sempre me pergunto o que a gente pode fazer para que não chegue a atitudes extremas, torcendo para que elas não aconteçam. E se eu conseguir fazer com que pelo menos um, dois, três alunos percebam que isso é uma idiotice, me sinto vitoriosa.

Mas aí acontece. Algo terrível. Sofrível para todos, não só para os envolvidos. A sociedade chora. Lamenta, se revolta. E aí a minha revolta é bem diferente...

Por favor, não venham me dizer que isso só acontece nos EUA. Tenha pelo menos um pouco de informação - não é a primeira e nem a última que isso acontece no Brasil. Não é sempre que tem tanta proporção, mas já aconteceu sim, e não foi apenas uma vez.

Por favor, não venha condenar esse rapaz! Não você, que punha apelido nos seus colegas. Não você que humilhava aquele que era diferente. Não você que falava mal de gordinhos, baixinhos, nerds e estranhos. Não você que morria de rir quando alguém fazia uma piada de mal gosto! Por favor, você que é covarde ao ofender as pessoas para se sentir melhor, não venha chamá-lo de covarde! Ei, você, pai, não venha me dizer que sofre assim como a família que perdeu um filho, e estimula seu filho a ser machão, aprova todo comportamento idiota que ele tem! Chega de tamanha hipocrisia! Não diga que você está indignado, se logo mais, você continuará sua vidinha e continuará humilhando pessoas para poder ser o engaçadinho!

Não estamos falando de um assassinato comum. Será que é tão difícil perceber que esse menino carregava uma revolta de anos, de rejeição, sofrimento, humilhação? Será que é tão difícil perceber que ele não escolheu uma escola por acaso, que não foi por acaso que ele voltou a escola que ele estudou, que não foi por acaso que ele escolhia meninas? Será que é tão difícil perceber que ele precisava de ajuda e não tinha ninguém para ajudá-lo?

Parece que sim. É mais fácil fazer o de sempre, transferir para o individuo um problema social. Culpá-lo por ser covarde. Culpá-lo por ser louco. Afinal, "nada justifica". Ele que não soube superar as "brincadeiras". Ele que deu muita "bola para o que os outros dizem". A culpa é só dele. De mais ninguém. Mais fácil, né? Afinal, ele está morto.

Pois bem, podem culpá-lo. Continuem a achar que é só brincadeira. Estamos no país da piada pronta mesmo, não é? Ignorem quando alguém tenta discutir o bullying. Achem engraçado. Riam. Compactuem com isso. Estimulem esse comportamento. Só não se espantem quando acontecer novamente. Porque vai acontecer.

São todos vítimas. E ao mesmo tempo, todos culpados. É impossível achar um único culpado e muito menos puni-lo. E então, daqui um tempo, as pessoas se esquecerão, continuarão suas vidas, em suas bolhas e seus egoísmos. Até acontecer algo que choque novamente. E começará tudo outra vez....

(Faz tempo que eu estava pensando em como escrever sobre os acontecimentos do Rio de Janeiro. Mas os sentimentos estavam tão confusos, que eu não conseguia definir por onde começar. Depois de ler pessoas incríveis que conseguiram pôr no papel aquilo que eu pensava, fiquei mais aliviada e a vontade de gritar para todo mundo o que eu sentia, passou um pouco! (para saberem de quem estou falando, vejam o blog da Aline, http://maisqueblablabla.blogspot.com/2011/04/monstros-sa.html e o blog do Miltão, http://liberoanimo.wordpress.com/2011/04/07/ajamos/ )
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