domingo, abril 26, 2009

Minha mãe é...




É aquela que é péssima para acordar as pessoas. Ela chega falando alto, abrindo a janela e dando bronca: "Você vai chegar atrasada!!". Ela também não é lá muito delicada para dar más notícias. "Ei, acorda, seu avô morreu". É.. bom dia pra você também, mãe..


Ela é também uma pessoa desastrada. Um sorvete sem derrubar na roupa, não é um sorvete! E por falar em sorvete, como ela gosta de um! Mesmo durante a dieta que ela vive fazendo, não abre mão de um sorvete!


Minha mãe é capaz de dar os maiores foras, do tipo, deixar pra fora de casa minha amiga que vinha do Paraná. Por que ela fez isso? Nem ela sabe! É também muito cara de pau - pechincha, pede, cobra. E quer saber? Ela sempre consegue! Sempre!


Eu, racional. Ela, impulsiva. Eu, penso duas vezes antes de fazer. Ela, faz duas vezes antes de pensar. Eu, sossegada. Ela, totalmente acelerada, caapaz de fazer mil coisas ao mesmo tempo. E apesar de parecermos tão diferentes, cada vez que eu derrubo o sorvete na roupa, eu percebo o quanto somos iguais.


Ela erra caminhos, não entende piadas, não gosta de cozinhar, adora perfumes e puxa o saco do meu irmão mais novo.Em todas essas imperfeições, ela se torna perfeita. Por que? Porque é a minha mãe!




(Foto: As duas mulheres que mais admiro na vida - Jundiaí, Natal de 2008)

sábado, abril 18, 2009

O amor sem remédios e o remédio do amor

É uma pena que esse sermão do Pe. Antônio Vieira não seja um dos mais comentados em sala de aula. Nem mesmo na faculdade, onde tive praticamente um curso inteiro sobre Vieira, falamos sobre ele. Reconheço que os outros tratam de temas mais polêmicos, envolvem política, a crítica a Igreja, a sociedade, enfim, temas considerados "importantes". Mas o que eu realmente gosto na literatura é quando percebemos o quão humana ela é. Como ela é capaz de transformar coisas banais em motivo de reflexão, de como ela é capaz de mudar o nosso olhar para com as coisas do Mundo.. Pois nesse sermão Vieira vai falar sobre o amor sem remédios e o remédio do amor, ele anuncia o início do evengelho dizendo que muitos dos que estão ali buscam a cura de uma efermidade. Assim sendo, o amor também é uma efermidade e como todas as outras coisas, há de se remediar. Qualquer outro diria que as dores de amor são mínimas perto das grandes enfermidades.. mas.. pensemos, de todos que estão em uma Igreja, quantos não sofrem da enfermidade do amor? Posso garantir que muitos não têm lá grandes enfermidades para pedir por ela, mas não há aquele que nunca tenha enfrentado a famosa dor de amor.. que inspira poetas, que melodia músicas e aflige humanos.

Assim, falando sobre os remédios para o amor, Vieira nos lembra que há aquele que é o amor sem remédios.. o amor perfeito, que resiste a todas essas remediações: o Amor de Cristo.
Ahh se todos os padres, pastores, guias espirituais, whatever, fossem como Vieira.. que a Igreja é um lugar pra tratar de assuntos divinos sim, mas também, de assuntos humanos. E que os dois podem conviver!

Vejamos então um pouco do que ele disse:
(...) O primeiro remédio que dizíamos é o tempo. Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera! São as afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito. São como as linhas que partem do centro para a circunferência, que, quanto mais continuadas, tanto menos unidas. Por isso os antigos sabiamente pintaram o amor menino, porque não há amor tão robusto, que chegue a ser velho. De todos os instrumentos com que o armou a natureza o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já não tira, embota-lhe as setas, com que já não fere, abre-lhe os olhos, com que vê o que não via, e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge. A razão natural de toda esta diferença, é porque o tempo tira a novidade às coisas, descobre-lhes os defeitos, enfastia-lhes o gosto, e basta que sejam usadas para não serem as mesmas. Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor? O mesmo amar é causa de não amar, e o ter amado muito, de amar menos. Baste por todos os exemplos o do amor de Davi.
O que era desejo se trocou subitamente em dor; o que era cegueira, em luz; o que era gosto, em lágrimas; e o que era amor, em arrependimento. E se tanto pode um ano, que farão os muitos?
Estes são os poderes do tempo sobre o amor. Mas sobre qual amor? Sobre o amor humano, que é fraco; sobre o amor humano, que é inconstante; sobre o amor humano, que não se governa por razão, senão por apetite; sobre o amor humano, que, ainda quando parece mais fino, é grosseiro e imperfeito.


Bem, mas aqueles que sofrem sabem como é custoso esperar as ações do tempo. Comparando o amor a qualquer enfermidade, hum.. vejamos, a gripe! Sim, a gripe.. sabemos que para sarar de uma gripe é preciso esperar.... uma semana ou menos. Mas apenas esperar, pra que ela passe. Ora, e tudo que pensamos é: falta muito pra passar? Então, o tempo é eficaz, mas é sofrido. Será que não teria algo mais rápido, Viera?


(...) O segundo remédio do amor é a ausência. Muitas enfermidades se curam só com a mudança do ar; o amor com a da terra. E o amor como a lua que, em havendo terra em meio, dai-o por eclipsado. À sepultura chamou Davi discretamente terra do esquecimento: Terra oblivionis (Sl. 87, 13). E que terra há que não seja a terra do esquecimento, se vos passastes a outra terra? Se os mortos são tão esquecidos, havendo tão pouca terra entre eles e os vivos, que podem esperar, e que se pode esperar dos ausentes? Se quatro palmos de terra causam tais efeitos, tantas léguas que farão? Em os longes, passando de tiro de seta, não chegam lá as forças do amor. Seguiu Pedro a Cristo de longe, e deste longe que se seguiu? Que aquele que na presença o defendia com a espada, na ausência o negou e jurou contra ele. Os filósofos definiram a morte pela ausência: Mors est absentia animae a corpore. (6)E a ausência também se há de definir pela morte, posto que seja uma morte de que mais vezes se ressuscita. Vede-o nos efeitos naturais de uma e outra. Os dois primeiros efeitos da morte são dividir e esfriar. Morreu um homem, apartou-se a alma do corpo: se o apalpardes logo, achareis algumas relíquias de calor; se tomastes daí a um pouco, tocastes um cadáver frio, uma estátua de regelo. Estes mesmos efeitos ou poderes têm a vice-morte, a ausência. Despediram-se com grandes demonstrações de afeto os que muito se amavam, apartaram-se enfim, e, se tomardes logo o pulso ao mais enternecido, achareis que palpitam no coração as saudades, que rebentam nos olhos as lágrimas, e que saem da boca alguns suspiros, que são as últimas respirações do amor. Mas, se tomardes depois destes ofícios de corpo presente, que achareis? Os olhos enxutos, a boca muda, o coração sossegado: tudo esquecimento, tudo frieza. Fez a ausência seu ofício, como a morte: apartou, e depois de apartar, esfriou.


A ausência. O que mais o ser humano teme, é cair no esquecimento. Comparar a ausência à morte, assusta. Mas convenhamos, sabemos que acostumamos com aquilo que não temos mais. Tudo se esfria. Mais rápida que o tempo, a ausência ainda deixa resquícios no coração daqueles que amam.. ambas deixam motivos para que volte-se a amar. Novamente, a gripe. Ela passa, mas pode voltar não é mesmo? Será que há algo mais definitivo?

(...)O terceiro remédio do amor é a ingratidão. Assim como os remédios mais eficazes são ordinariamente os mais violentos, assim a ingratidão é o remédio mais sensitivo do amor, e juntamente o mais efetivo. A virtude que lhe dá tamanha eficácia, se eu bem o considero, é ter este remédio da sua parte a razão. Diminuir o amor o tempo, esfriar o amor a ausência, é sem-razão de que todos se queixam; mas que a ingratidão mude o amor e o converta em aborrecimento, a mesma razão o aprova, o persuade, e parece que o manda. Que sentença mais justa que privar do amor a um ingrato? O tempo é natureza, a ausência pode ser força, a ingratidão sempre é delito. Se ponderarmos os efeitos de cada um destes contrários, acharemos que a ingratidão é o mais forte. O tempo tira ao amor a novidade, a ausência tira-lhe a comunicação, a ingratidão tira-lhe o motivo. De sorte que o amigo, por ser antigo, ou por estar ausente, não perde o merecimento de ser amado; se o deixamos de amar não é culpa sua, é injustiça nossa; porém, se foi ingrato, não só ficou indigno do mais tíbio amor, mas merecedor de todo o ódio. Finalmente o tempo e a ausência combatem o amor pela memória, a ingratidão pelo entendimento e pela vontade. E ferido o amor no cérebro, e ferido no coração, como pode viver? O exemplo que temos para justificar esta razão ainda é maior que os passados.
E se a ingratidão ressuscita o aborrecimento até nos mortos, como achará amor nos vivos? (...)


Bem, a Ingratidão parece mesmo muito eficaz!!! Nada melhor do que quando não há mais motivos para amar, quando percebe que simplesmente o ser amado não merece o amor. Mas será então que não há uma alternativa menos dolorida para o amor? Sempre deve ser sofrido, doloroso..com separações, rancores, cicatrizes. Será que há uma esperança?

(...)É pois o quarto e último remédio do amor, e com o qual ninguém deixou de sarar: o melhorar de objeto. Dizem que um amor com outro se paga, e mais certo é que um amor com outro se apaga. Assim como dois contrários em grau intenso não podem estar juntos em um sujeito, assim no mesmo coração não podem caber dois amores, porque o amor que não é intenso não é amor. Ora, grande coisa deve de ser o amor, pois, sendo assim, que não bastam a encher um coração mil mundos, não cabem em um coração dois amores. Daqui vem que, se acaso se encontram e pleiteiam sobre o lugar, sempre fica a vitória pelo melhor objeto. É o amor entre os afetos como a luz entre as qualidades. Comumente se diz que o maior contrário da luz são as trevas, e não é assim. O maior contrário de uma luz é outra luz maior. As estrelas no meio das trevas luzem e resplandecem mais, mas em aparecendo o sol, que é luz maior, desaparecem as estrelas. O mesmo lhe sucede ao amor, por grande e extremado que seja. Em aparecendo o maior e melhor objeto, logo se desamou o menor.


Depois de convercer-se de que sarar dessa enfermidade não é nem um pouco fácil (sim, ele me convenceu! rs) Eis uma luz. Melhorar de objeto. Encontrar outro amor. Maior, por consequência, melhor. Capaz de fazer com o que o outro se torne menor, se apague, suma, desapareça. Bem, se é tão bom amar, se é tão bom sentir esse sentimento, não há mesmo melhor remédio para o amor do que outro amor, e o melhor de tudo, não é sofrido. Parece perfeito, não?
A única coisa que o Viera não soube explicar, e nem ele e nem ninguém, é se é possível escolher.
Resta-nos torcer, para poder padecer do melhor de todos os remédios!

segunda-feira, abril 13, 2009

Música deveras conveniente


All I'll can ever be to you
Is a darkness that we know,
And this regret I got accustomed to.
Once it was so right
When we were at our high,
Waiting for you in the hotel at night.
I knew I hadn't met my match,
But every moment we could snatch,
I don't know why I got so attached.
It's my responsibility,
And you don't owe nothing to me,
But to walk away I have no capacity.
He walks away,
The sun goes down,
He takes the day but I'm grown
And in your way,
In this blue shade
My tears dry on their own.
I don't understand,
Why do I stress a man,
When there's so many bigger things at hand,
We could've never had it all,
We had to hit a wall,
So this is an inevitable withdrawal.
Even if I stop wanting you
A perspective pushes true,
I'll be some next man's other woman soon.
I couldn't play myself again,
I should just be my own best friend,
Not fuck myself in the head with stupid men.
He walks away,
The sun goes down,
He takes the day but I'm grown
And in your way,
In this blue shade
My tears dry on their own.
So we are history,
Your shadow covers me,
The sky above
A blaze
He walks away,
The sun goes down,
He takes the day but I'm grown
And in your way,
In this blue shade
My tears dry on their own.
I wish I could say no regrets,
And no emotional debts,
Cause as we kiss goodbye the sun sets.
So we are history,
Your shadow covers me,
The sky above a blaze that only lovers see.
He walks away,
The sun goes down,
He takes the day but I'm grown
And in your way,
In my blue shade
My tears dry on their own.
He walks away,
The sun goes down,
He takes the day but I am grown
And in your way,
My deep shade,
My tears dry on their own.
He walks away,
The sun goes down,
He takes the day but I'm grown
And in your way,
My deep shade,
My tears dry...
(tears dry on their own)

domingo, abril 12, 2009

Da série: coisas que não fazem mais sentido depois que você cresce

A Páscoa.

Tenho uma família grande. Grande e unida. Já foi mais, fato, mas unida. Logo, datas comemorativas sempre foram motivo de nos reunir. Assim, me lembro de como foi triste o primeiro feriado da Páscoa que não passei junto com todos. Foi estranho. Eu gosto de rituais. Acredito que eles sejam fundamentais para tornar "um dia diferente dos outros dias, uma hora diferente das outras horas". Assim, a sexta feira santa sem a torta da tia Maria, não foi a mesma coisa. Não me importava em ganhar muitos ovos de Páscoa, o que eu realmente gostava era isso: estarmos todos juntos, falando alto, brigando, rindo, comendo.. enfim, juntos.
Com o tempo, cada vez menos fomos nos reunindo nesse dia.. e cada vez menos sentido a Páscoa faz para mim.
Em tempos mais católicos, respeitava e seguia toda a simbologia que envolve esse dia, mas hoje, tenho uma outra visão.Ainda respeito, não vou fazer um churrasco na sexta feira da Paixão. Simplesmente porque tem todos os outros mil dias no ano para se fazer um churrasco. Se vc não quer não comer carne vermelha, tudo bem, mas fazer um churrasco é apenas uma afronta. Uma afronta gratuita. Mas o que eu simplesmente não compreendo é a finalidade de tanta simbologia: Por que deixar de tomar refrigerante durante a quaresma? Por que não comer carne vermelha no dia da paixão?De que vale atravessar uma ponte inteira de joelhos? Por que essa exaltação do sofrimento!?

Seria válido se tudo isso provocasse mudança de comportamento. Se depois de deixar de comer carne vermelha, você fosse capaz de pensar também na criança que não ganha ovo de páscoa e do quanto isso é importante pra ela. Se ao atravessar a ponte de joelhos para agradecer uma graça, você se lembre de que não custa nada ir até um hospital arrancar um sorriso de alguém que passou o feriado dentro de um quarto. Ou ainda que ao fim da quaresma, vc perceba que ficar sem tomar refrigerante não é sacrifício nenhum, sacrifício é sustentar uma família com um salário mínimo.

Se a Páscoa seria um momento de renascer, renovar e aceitar a lição de amor deixada por Cristo, penso que os cristão a banalizaram completamente. Escondem-se atrás de um monte de simbologias criadas sabe-se lá por quem e continuam com seu espírito mediocre.

Não sei se posso ainda me considerar católica. Prefiro me considerar apenas cristã. Procuro evitar que os dogmas de uma igreja não me ceguem com relação a lição mais bonita que existe relacionada a essa data: a possibilidade de ressuscitar. Ressuscitar os sentimentos bons, fazer nascer alguém que não existia dentro de você, e aos poucos, servir de exemplo, fazer a diferença.

Feliz Páscoa! Que vcs possam apreciar seus chocolates, curtir suas famílias, amigos, namorados.. e pensar, pelo menos um pouco, no que realmente esse dia significa.

sábado, abril 11, 2009

Salto alto, unhas vermelhas, o gloss fecha o visual maquiado e noturno. Os olhos escuros, o rímel, o blush para dar um ar saudável a pele.. Sai pela porta e deixa o rastro do perfume junto com o barulho das chaves do carro. É um ritual.
Todos os fins de semana, a cena se repete. Prepara-se pra uma noite que já sabe como vai ser..
Não entendia mais porque insistia em seguir esse mesmo caminho se ele parece já não fazer mais sentido.
A bebida faz que com que se enquadre na ditadura da felicidade, ri muito, dança, sente-se invencível, poderosa, absoluta. Tudo enganação. No fim da noite, junto com o sono, a decepção para consigo. Deixou-se levar mais uma vez.. enganou-se por mais um sábado. E fará isso mais quantas vezes?
Não quer mais se sentir obrigada a ser feliz. Queria realmente estar feliz, plenamente feliz. Não queria mais apenas conformar-se com o que tem e acreditar que poderia ser feliz apenas assim. Falta-lhe ambição, aliás, não permitem a ambição. Consideram-lhe ingrata.
Quem consideram? Quem são esses que importam tanto? Que sufocam, pressionam?
Apontam, julgam, determinam em meio a suprema vaidade humana. Julgam-se capazes de afirmar categoricamente o que é melhor para você. E você se esforça para agradá-los.
Estava realmente farta. Não queria mais colocar o salto alto. Não queria mais preocupar-se em impressionar. Não queria mais procurar pelo que não existe. Queria já ter encontrado e então, poder viver outro momento, criar novos rituais, ter novas ambições..
Queria querbar o seu ciclo, seguir um novo caminho, ser uma nova pessoa.
Queria..
falta-lhe coragem. É fraca. E acima de tudo, medrosa. Mais fácil culpar a tudo que a cerca por ser como é.. difícil reconhecer que enquanto puser a culpa n'Eles, continuará assim... vazia.

A palavra é meu domínio sobre o mundo

"Eu te odeio", disse ela para um homem cujo crime único era o de não amá-la. "Eu te odeio", disse muito apressada. Mas não sabia sequer como se fazia. Como cavar na terra até encontrar a água negra, como abrir passagem na terra dura e chegar jamais a si mesma?"


....


"Eu já começara a adivinhar que ele me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra."

...



Por enquanto estou inventando a tua presença

....

O que me atormenta é q tudo é 'por enquanto', nada é ' sempre'“.

....

Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse sempre a novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias

.....

Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil.

...

Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam.


Clarice Lispector.

sábado, abril 04, 2009

Interessam? ou não?

Houve um tempo em que esse blog era mais movimentado. Costumava escrever sempre, sobre diversos assuntos... ultimamente, "malemá" posto um texto que nem sequer é de minha autoria! Não sei ao certo o que me fez parar de escrever, mas ando meio "sem inspiração". Acho que não tenho mais tanta disposição pra refletir sobre os porquês (os tantos porquês) da vida.
Bom, mas como nunca se abandona de vez uma paixão, volto com um novo texto! voilá!

Mentiras sinceras


Peguei o livro que estava sobre a mesa e passei os olhos pela contracapa: Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.” (Graciliano Ramos)

A palavra foi feita para dizer. Ao mesmo tempo que pareceu uma afirmação obvia tornou-se esclarecedora. É curioso como o obvio ainda causa espanto. Pois então não é assim que deveria ser? Não deveria ser esse o único objetivo das palavras? Dizer. Simples assim.

Dizer, não mentir. Dizer, não enganar. Dizer, não enrolar. Dizer, não falsear.
Pensei em todas as palavras que escuto todos os dias e quais delas realmente diziam alguma coisa. Em quantas delas são absolutamente desnecessárias. E como eu ficaria muito melhor sem nunca tê-las ouvido.

As pessoas se esquecem que a palavra tem autoridade sobre as coisas do mundo. Ou seja, a partir do momento em que é dita, pressupõe-se que é uma verdade. Porém o sentido anda tão banalizado, que os valores se inverteram: partimos do princípio de que é uma mentira. Mentira sincera, mas mentira. Que leva tempo e paciência para atingir o status de verdade.

Falsos elogios. Falsas saudades. Falsos cumprimentos. Que são proferidos por hábito, sem nenhuma consciência do que significam. Azar daqueles que porventura, acreditam.

Pois foi essa última frase que me fez escrever correndo o risco de até mesmo cair nesse mesmo erro. Afinal, as palavras são sedutoras, enganam, confundem, dissimulam... É fácil esconder-se por de trás delas.

Graciliano Ramos refere-se ao ato de escrever, quem já leu uma obra dele sabe bem o porquê dessa afirmação: frases curtas, diretas, intensas. Em uma frase Graciliano é capaz de tocar. Até mesmo seus personagens, Fabiano, de Vidas Secas, não sabe falar, se atrapalha com as letras, mas o narrador é capaz de expor toda sua complexidade interior, sem muitos rodeios... com as mesmas frases simples e definitivas.

E é isso que eu quero: palavras simples, mas definitivas. Que digam, e por dizer, construam realidades.

Cazuza que me perdoe, mas mentiras sinceras, não me interessam.
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