segunda-feira, novembro 17, 2008

Suspiro

Logo pela manhã o sol já gritava na janela. Era o Verão. Mais um verão. Escondeu as meias no canto da gaveta e fechou as blusas no armário sem nem sequer se despedir. "Adeus, Inverno.."

Estava feliz em receber o verão pela janela mais uma vez. O querido amigo Verão, aquele que sempre traz tantas histórias. As melhores, por sinal! Os melhores fins de tarde, os melhores amigos, as melhores paixões..


"Ahh... o Verão! o que seria da minha vida sem vc? Muito mais sem graça, com certeza!"respondeu a si com toda convicção. O mais triste do verão, é quando ele acaba. Parece que junto com o sol, vai todo aquele vigor, aquela sensação de que tudo é possível, de que não existem amarras e tudo pode acontecer.

Mas não era nisso que queria pensar diante daquele sol. Não queria lembrar dos verões passados. Não queria lembrar do que se sucedeu a eles. Afinal, aquele sol já não era o mesmo. Afinal, ela já não era a mesma. De um verão para o outro, sentia muito mais que um ano.. não dizia como todos, não sentia que tinha passado rápido. Sentiu cada mês desse longo ano. Viveu cada segundo de cada dura conversa. Sentiu pesadamente os dias até cada dor passar. E sorria enquanto tudo isso acontecia e parecia não mais acabar. Viveu cada noite de festa como se fossem intermináveis momentos de alegria.Definitivamente.. nunca esperou tanto por um novo verão.

E esperou poder acreditar nesse novo verão.. e o sol estava ali. Mostrando que ele tinha chegado.

E ela acreditava.

sexta-feira, novembro 07, 2008

Felicidade?!?

Lóri estava suavemente espantada. Então isso era a felicidade. De início se sentiu vazia. Depois seus olhos ficaram úmidos: era felicidade, mas como sou mortal, como o amor pelo mundo me transcende. O amor pela vida mortal a assassinava docemente, aos poucos. E o que é que eu faço? Que eu faço com a felicidade? que faço dessa paz estranha e aguda que já está começando a me doer como uma angústia, como um grande silêncio de espaços? A quem dou minha felicidade que já está começando a me rasgar um pouco e me assusta. Não quero ser feliz. Prefiro a mediocridade.
(O livro dos prazeres, Clarice Lispector)

Quando era mais nova não gostava de ler Clarice. Não gostava porque eu não entendia. E na verdade, ainda não sei se entendo. Ou melhor, sei. Não entendo. Não é para entender. Vc passa a entender Clarice quando vc sente. Parece uma frase "emo", mas é assim que eu encaro a literatura da Lispector. É algo que vc lê, e não consegue guardar pra vc, quer compartilhar, quer discutir, entender... e isso acontece porque ela penetra a fundo no ser humano. Ela teve a coragem de escrever o que todo mundo sente.
Todos nós já fomos como a Lóri em algum momento (senão em vários). O ser humano não gosta de ser feliz, é só ele se sentir feliz e já busca um outro motivo para se chatear. A velha disputa do "quem sofre mais". É mais louvável ser sofrível, ser feliz não é interessante. Todos dizem ser felizes, estarem felizes.. da boca pra fora, na primeira brecha que têm, buscam a mediocridade, algo que os faça querer mais. Mais felicidade.. Esta não está boa. Esse é o vazio.
Fala-se tanto em buscar a felicidade, procure o que te faz feliz, faça o possível pra ser feliz... e, será que ninguém nunca se perguntou se essa busca é eterna? Afinal, nunca ouvi alguém dizer: "Ah, agora sim, estou feliz, não preciso de mais nada." Só vejo pessoas dizendo incessantemente que estão buscando ser felizes..
Creio que todos sintam como a Lóri, na hora que se dão conta de que encontraram a felicidade, sentem um vazio. "E agora?". O que fazer com essa felicidade.. "tá e aí?". E por não se contentarem com ela, vivem na mediocridade, na busca de uma felicidade que não existe, que está sabe-se lá onde, inalcansável.
É difícil assumir as fraquezas humanas. Uma vez que são tantas! E muitas vezes, tão fúteis. Por isso que ler Clarice dói, porque ela fala. E vc se reconhece, mas não quer se reconhecer. Prefere continuar no "jogo do contente".. vestindo as máscaras que nos escondem de nós mesmos.
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