segunda-feira, janeiro 24, 2011

Filme "Nosso Lar" e outros pensamentos.

"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro" (Clarice Lispector) 




Não sou espírita. E já também não sei se sou católica. Se ser católica significa ser batizada, crismada e ter primeira eucaristia, pois bem, eu sou. Agora se é ir a Igreja e concordar plenamente com os dogmas católicos, então não. Considero-me cristã. Não acredito em Alá, nem Buda, nem acho que Jesus Cristo foi só um profeta. Sou apenas uma pessoa que tem fé. E a minha fé assim como a de todos vem justamente daquilo que não podemos explicar. Acredita-se e fim. 


Ontem, ao assistir ao filme Nosso Lar, tive vários pensamentos. Não li o livro e nem mesmo conheço os estudos espíritas, embora tenha uma grande admiração e respeito (porque não, afinidade?) com os seus ideais. Então, para mim, houve algumas surpresas e questões. A primeira coisa que busquei ao ver as imagens do Umbral e do próprio Nosso Lar foi: Como eu achava que era o céu? e o inferno? e o purgatório? - Bem, como católica, essas entidades imaginárias sempre foram recorrentes em meu subconsciente, até que me dei conta de que eu nunca tive na verdade uma verdadeira idéia física do que fosse o céu ou o inferno e etc. As imagens mostradas no filme são absolutamente questionáveis para alguém que desconhece os estudos espíritas - uma cidade em outra dimensão, computadores, televisores, enfim.. algumas supresas com relação àquele imaginário comum: um dia ensolarado, jardins, flores, clima ameno e feliz. Duvido que alguém faria uma descrição diferente do céu. 


Mas o mérito do filme, ao meu ver, e o que mais me fez pensar de ontem pra hoje foi: como são as pessoas que estão no céu? como elas devem ser? E nesse quesito, ponto para o espiritismo: o céu é um lugar onde existem pessoas do bem. Todos iguais entre si, respeitando-se, amando-se, unindo-se. Não importa como será o "céu" fisicamente, mas se as pessoas que o compõem realmente for assim.. então, estamos falando a mesma língua. E o outro ponto positivo para o espiritismo é: isso não acontece sem aprendizagem. E essa aprendizagem não é só na vida terrena. O Ser humano precisa aprender constantemente, porque ele tem falhas, erros, defeitos. E nem sempre ele tem consciência dos defeitos. (aliás, quase nunca tem) 


As pessoas admitem defeitos que na verdade as torna ainda mais vítimas - eu me preocupo demais com as pessoas, eu abro mão pelos outros, eu dou mais do que recebo, etc. Ora, defeitos assim são fáceis e até bons de admitir. Estou falando daqueles defeitos tão humanos, que todos sentem, e que temem admitir como se a partir do momento que dissessem ele se tornasse mais real - a inveja, o egoísmo, a traição, a falsidade. Não me venha dizer que nunca sofreu de nenhum desses, porque eu simplesmente não acredito. 


Pessoas mentem todos os dias o tempo todo. Pessoas enganam, traem, e nem sempre com a intenção de fazer mal a alguém, mas não estão sendo corretas. Pessoas que traem seus companheiros. E não falo só de infidelidade - eu falo de mentira, deslealdade, falta de respeito. Pedem perdão, não se arrependem e fazem de novo e de novo e de novo.Quem nunca ficou com uma pessoa comprometida e ainda diz: "Não sou eu que tenho compromisso" Como se isso livrasse sua culpa. Isso se chama traição. Quem nunca julgou pessoas que tem mais amigos do que vc, gostam mais de outra pessoa do que vc, tem um(a) namorado (a) mais bonito, ganha mais, diverte-se mais, enfim.Isso se chama inveja. Quem nunca se irritou pq alguém não fez o que vc queria que aquela pessoa fizesse. Deixa eu te avisar: isso é egoísmo. Julgar atos, criticar pelas costas e sorrir pela frente. Vamos lá, sejam sinceros consigo. Sim, estamos todos sujeitos. Ninguém está livre. Ninguém tem caminho reto, direto e sem dor ao "céu" só por causa de uma dúzia de ave-marias e pai-nossos ou uma doação em dinheiro pro Boldrini.. o arrependimento real é muito mais dificil. 


No fundo, eu tenho pena daqueles que acham que não erram. Já se acham bons o suficiente. Não roubo ninguém, não mato, vou a missa, não faço mal a ninguém - vou pro céu. Tenho pena dos que têm essa certeza. Tenho penas dos que se consideram bonzinhos. Se consideram prontos.


Prefiro pensar que ainda não estou pronta. Que ainda erro muito e tenho muito ainda pra aprender com cada erro. Tenho que melhorar cada vez mais, evoluir mais. E ainda assim, não estarei pronta. Porque o que separa o humano do divino é justamente isso: a imperfeição. 


Independente de religião, crenças ou fé - tenhamos a consciência de sermos humanos, e por isso frágeis, suscetíveis, ruins.. e busquemos cada vez mais ser uma pessoa melhor. E quem tiver com essa ideia, independentemente de qual religião for,  estou dentro! 


Quanto ao filme em si - atuação fraca, efeitos e cenários duvidosos, porém uma boa história! Vale a pena. 

6 comentários:

Priscila disse...

Sue, acabei de ir no centro, eles falaram mto desse "céu" e de como levamos tudo o que fazemos pras outras vidas. Adorei o post... beijos Pri

João disse...

Sue, muito legal seu texto. Adorei de verdade e ele está mais que coberto com a razão. Agora talvez entenda um pouco sobre meus conflitos. É muito dificil equacionar nessa vida. Mas continuemos e vamos lutando. Sempre achei que você se identificaria com algo no Espiritismo, por ser bem racional.
Bjos

Du Santana disse...

Por ser cristão eu ainda prefiro dar ouvidos a Bíblia que diz que
“os mortos não sabem coisa nenhuma” (Ec 9:5),
e que a morte é como um sono (Jo 11:13; lTs 4:13).

Não importa a contribuição da tv e outros meios de mídia com argumentos humanos e cristãos para a pregação de uma existência fora do corpo, enquanto que a própria bíblia diz que seremos ressuscitados e não reencarnados nos últimos dias (João 6:39,40 ).

Não deixe para uma suposta outra vida a chançe que vc tem de conhecer a verdade agora.
Vc diz que crê que Jesus ñ foi só um profeta,isso é ótimo, pois Ele é divino também. Por favor dê ouvidos a Ele que sabe de todas as coisas do universo que Ele próprio criou, não se deixe enganar por argumentos bonitos.

lê :) disse...

Sue, faz um tempinho que eu to tentando entender melhor essa coisa toda de ser espírita.. E minha mãe acabou comprando alguns livros pra mim.. Eu li todos, e o que eu achei mais interessante foi o "Doce Entardecer", da Sulamita Santos. Me deixou com uma ideia bem mais tranquila do que era tudo isso e do que podia ser o "céu" e tal.. Talvez vc goste, se ainda quiser entender um pouco mais.. Posso te emprestar se vc quiser!
:)

Anônimo disse...

Sue Ellen, algo interessante é este vídeo que está no youtube: A ponte

http://www.youtube.com/watch?v=3Gk6hxqUWcU

É a escolha de um pai...

Jorge Renato disse...

Sue,
Sua maneira de pensar é coerente a doutrina espírita. O filme Nosso Lar não é 100% fiel ao livro, que relata melhor a estória. Acredito que você gostará das leituras espíritas, que serão de bom proveito!
Ps: Você escreve muito bem.
Abraço,
Jorge

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