segunda-feira, janeiro 21, 2013

Bolero de Ravel

"A alma cativa e obcecada
enrola-se infinitamente numa espiral de desejo
e melancolia.
Infinita, infinitamente...
As mãos não tocam jamais o aéreo objeto,
esquiva ondulação evanescente.
Os olhos, magnetizados, escutam
e no círculo ardente nossa vida para sempre está presa,
está presa...
Os tambores abafam a morte do Imperador."
(Carlos Drummond de Andrade)

Uma das delícias em ser professora de literatura é se surpreender a cada nova aula. É perceber coisas que não percebera antes a partir de um comentário. É ter uma epifania, ainda que exista a obrigação e a exigência. Entrou para a lista dos vestibulares Sentimento do mundo, de Drummond. Depois de muito tempo tentando "penetrar surdamente no reino das palavras" por meio d'A rosa do Povo, eis que tive a deliciosa obrigação de ler Sentimento do mundo. 

Pra quem não conhece, Bolero é a famosa composição de Maurice Ravel, por isso ficou conhecida como Bolero de Ravel, trata-se de uma música... chata, como bem comentou meu aluno ao ler o título do poema. Na hora em que ele leu, lançou "Eu já toquei essa música, ela é chata pra caramba" . Ele, vestibulando de Música, já anunciou pro resto da sala o que estava por vir. "Por que é chata, Otávio?" "Ela não sai daquilo, é repetitiva. Chata."  (vindo dele o comentário é ainda mais significativo, pois ele toca percussão, e o mais repetitivo em todo o bolero é justamento o barulho dos tambores).  Pois é, o bolero de Ravel é extremamente famoso, marcado pela repetição intensa da mesma melodia que vai ganhando força com o aumento da repetição.
(Se quiser, dá o play aí, ouve uma vez, ficará o dia todo com a maldita na cabeça...) 

 Só com título, Drummond já nos diz muitas coisas: a repetição, a insistência, o ciclo. Se formos verso a verso, veja só "cativa e obcecada". Cativo é aquele que está em cativeiro, aprisionado. Obcecado, bem, talvez este cativeiro seja uma escolha, fruto dessa obsessão da alma...uma alma que se joga em uma espiral - de desejo e melancolia - a espiral  é justamente a representação concreta de um ciclo, afinal ela parece não ter fim - "Infinita, infinitamente". Em meio a esse ciclo vicioso "as mãos não tocam jamais o aéreo objeto", ou seja, o objetivo pretendido não é alcançado e mesmo assim, nossa vida continua "presa", "está presa" - as repetições no texto o aproximam do ritmo do bolero.

Drummond nos mostra como, às vezes, nos jogamos em um Bolero de Ravel. Acabamos por nos tornar prisioneiros de uma obsessão. Insistimos,  continuamos, persistimos, a ponto de não ter mais controle do que estamos fazendo, tornamos-nos cativos. Obcecados. No início, havia um objetivo, mas este acaba esquecido. O foco não é mais o objeto de desejo em si, mas apenas consegui-lo, ainda que ele não faça mais sentido. "Os tambores abafam a morte do Imperador" - a obsessão faz com que nem mesmo percebamos que não há mais objetivo, acabou, o alvo não existe. E você está preso em uma luta que não tem mais motivo.

O poeta gauche me levou a uma viagem interior, incontáveis momentos em que eu estava presa em um Bolero de Ravel. Momentos em que eu estava envolvida na espiral e não sabia mais diferenciar o começo do fim, tudo era um ciclo eterno. O problema é quando os tambores param de soar. Enquanto eles "abafam a morte do imperador", continuamos na insistência, no murro em ponto de faca. Mas quando os tambores param, vem a realidade. Não há mais imperador. Acabou. Para. Não faz mais sentido. Você está livre.

E quem disse que nós queremos estar livres?

Queremos estar presos. Presos a pessoas. Pessoas que não nos amam. Insistimos em alguém que já é caso perdido. Para quê? Pessoas egoístas que só pensam nelas mesmas. Insistimos achando que uma hora elas irão perceber o que fizemos para elas. Para quê? Pessoas conturbadas cujas vidas achamos que pudemos mudar (ahh, quanta ousadia...) Para quê? Presos a ideais. Ideais que não valem a pena. Lutamos por ideais que nem sabemos se valem a pena. Por quê?  Presos a sonhos. Sonhos que precisam ser deixados pra trás. Não se realizaram e nem vão se realizar. Somos resistentes à mudança. Por quê?

A sociedade nos treinou para não desistir. Para não perder. Quem não vai até as últimas consequências é covarde. A sociedade nos ensinou a ser teimoso, cabeça-dura. Esgotar todas as possibilidades. E assim nós mergulhamos na espiral para alcançar sabe-se lá o que. Até os tambores pararem.

Mas, quando os tambores param, é preciso fazer alguma coisa. Em uma metáfora bem simples, é como o cachorro correndo atrás do carro. E se o carro parar, o que ele vai fazer? E o que fazemos com a liberdade? Não a queremos. É mais fácil ser cativo.

O pior de tudo é quando param os tambores e você percebe o quanto perdeu. Por mais que seja difícil lidar com a liberdade, ainda é melhor do que viver para sempre no mesmo ciclo. Perceber o quanto de tempo, empenho foi dedicado a algo que já havia perdido o sentido há muito tempo. (Se é que houve sentido em algum momento).

E aí mudamos, damos novas chances, começamos de novo... cheios de otimismo, uma nova melodia, um novo ritmo. E a pergunta que não sai da minha cabeça é: será que não estou mergulhando novamente em um Bolero de Ravel?


5 comentários:

Camila disse...

A literatura é fascinante mesmo :)

Marcelo disse...

Adorei sua analise, Estou graduando em Letras vernáculas pela Uneb, e preciso apresentar um seminário sobre o livro, Vou dar o melhor de mim.

Anônimo disse...

boa análise do poema...mas como prezamos pelo português correto o certo seria dizer círculo vicioso e não ciclo...abraço..continue assim adorei...

Winston Smith disse...

É sempre uma experiência interessante ter contato com análises e interpretações diversas acerca de uma mesma obra. Esse contato permite que o leitor identifique referências biográficas, históricas, intertextuais e outros elementos implícitos no texto que eventualmente tenham escapado à sua própria interpretação. Na poesia, essa experiência é particularmente marcante, pois nesse gênero textual - essencialmente subjetivo e abstrato por excelência - o universo de interpretações é ainda mais amplo (já que subjetivo) e mais dificilmente penetrável para um leitor médio (já que abstrato), que é o meu caso.
Nesse sentido, achei admiravelmente oportuna a sua interpretação da "alma cativa e obcecada". No meu contato com esse texto, não me ocorreu que essa insistência, essa inflexibilidade representada pela "espiral de desejo e melancolia" pudesse aludir a um esforço emocional.
Evidente que o termo "melancolia" indica antes de tudo um estado emocional... Mas como o meu primeiro contato com a obra de Drummond se deu com "A rosa do povo" e o "Sentimento do mundo", eu desenvolvi a mania de procurar por referências sobretudo políticas/históricas nas poesias desse grande poeta mineiro.
Com relação ao seu axioma de que "queremos sempre estar presos", não pude deixar de lembrar da dualidade peso-leveza abordada em "A insustentável leveza do ser", a obra-prima do tcheco Milan Kundera.
E quanto à composição de Ravel, não posso deixar de me opor ao comentário do seu aluno. É discutível a afirmação de que o tal "Bolero" seja a obra-prima do compositor francês - como alguns afirmam precipitadamente -, mas é indiscutível - na minha opinião - de que se trata de uma peça dotada de uma refinada sensibilidade artística. Ademais, é uma pena que tão pouco da obra dos compositores impressionistas - sobretudo Ravel e Debussy - seja do conhecimento do grande público, pois eles nos deixaram peças de distinta sensibilidade artística.

Anônimo disse...

Parabéns! Vou analisar esse poema em um trabalho de escola e seu artigo me ajudou muito!

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