segunda-feira, julho 09, 2012

O final alternativo


- UM IDIOTA! É isso o que ele é! Está pensando o que? Que vai ser fácil achar alguém como eu? Ah... não vai... não vai mesmo! Quem mais vai aguentar? Só eu pra aguentar aquele idiota! Quer saber? Eu não vou mais aguentar, não! Ele não me merece! E eu não mereço ficar aqui, sofrendo a toa...

E ela fez como toda garota com o coração partido faz. Depois de chorar, gritar, fazer o seu drama pessoal, ligou para as amigas solteiras com a boa nova (elas sempre procuram as amigas solteiras). Ouviu meia-dúzia de palavras motivacionais que ela queria tanto ouvir, para dar aquela massageada no ego: "você é muito pra ele", "ele vai se arrepender, não liga não" "logo você conhece alguém muito melhor" - e passou à fase do convencimento: convencer-se de que era melhor estar sozinha, faria o que quisesse, sem dar satisfações a ninguém, era nova demais  e iria aproveitar a vida. É, era isso mesmo que iria fazer.

- Mano...LOUCA, essa garota é LOUCA! Se pá, o louco sou eu né? Só podia estar louco mesmo pra namorar uma mina dessa, pelamor! Ligar pros cara, tomar uma, esfriar a cabeça...

Os "cara" não discutiram muito o assunto. Concordaram que mulher é mesmo tudo louca, exagerada demais! Dramáticas! E decidiram que o melhor a fazer era não se amarrar, tem altas festas vindo por aí, logo chega o carnaval.. bora sair, beber e ver o que tem de bom no momento. Ele estava chateado. Mas para os homens é mais difícil sofrer. Coisa de viado, você sabe. Não pode perder muito tempo com isso

E assim os dois mergulharam na vida de solteiros. Ele, quando percebeu, já estava bêbado. Quando se deu conta, estava xavecando as garotas. Beijou uma, duas talvez. Ela também. Beijou um rapaz que pegou seu telefone, foi ao banheiro e não voltou. Ele não pegou o telefone e nem voltou. Ambos se divertiram, ou pelo menos acreditavam estar se divertindo. Queriam estar. Mas ele sempre vem. Depois que a bebida passa, depois que os amigos vão embora,  na hora que você põe a cabeça no travesseiro, vem o vazio...o vazio da ausência. Então você se dá conta de que foi tudo em vão, afinal é difícil ser solteiro com o coração ocupado. ..

E agora? Bem, se eu bem vos conheço,  Leitor (a), espera que eu lhe dê um final feliz, não é mesmo? Você chegou até aqui e já está torcendo por um final feliz: que eles se reconciliem, percebam que se amam e fiquem bem. É incrível como sempre queremos o final feliz.. até mesmo quando sabemos que ele não existe.
E esta é uma crônica escrita por alguém que não conhece os finais felizes. Dizem que eles existem, mas eu acho que na verdade foi tudo uma invenção do Walt Disney para vender mais os seus filmes. Está é uma crônica ácida, Leitor, escrita por alguém que já teve tantos "quases" na sua vida e que aprendeu que nem sempre as coisas acontecem como nós gostaríamos que acontecesse...

Ela acordou arrasada, devastada... e como é difícil estar devastada num mundo onde pedem o tempo todo para que seja forte, feliz e bem resolvido. Ninguém está preparado para admitir fraquezas. Ela não queria admitir que estava arrependida. Mais: culpada. Odiava-se por sentir-se assim: exagerou, falou demais, podia ter pegado mais leve.. Mas odiava-se tanto por isso que até espalhava esses pensamentos para que pudesse fingir que eles não existem. Seguiu as regras do mundo: estava bem! Ou pelo menos, iria ficar! E precisava dizer pra todo mundo, precisava mostrar pra ele o que ele estava perdendo. Gritou aos quatro ventos das redes sociais como estava bem e feliz: tudo ilusão. Pura falsidade. Os sorrisos das fotos. Os trechos de música barata no status. As piadinhas internas entre as amigas. Um grande teatro que enganou nem ela mesma. Muito menos ele.

- Louca...louca...

Enquanto ela encenava, ele mostrava indiferença. O seu jeito de mostrar que estava bem era fazer simplesmente nada. Não mostrar reação alguma. Nem sofrer, nem comemorar. Fingiria que não tinha visto nada daquilo.. ou pior: viu e não se importou. Gostava dela sim, mas será que valia a pena? Queria conversar, numa boa e o que ele via? Um holofote dizendo: "Ei, olhe pra mim! Estou chamando atenção" em uma página do facebook.

O teatro durou mais alguns dias. E logo veio outro final de semana. E o ritual começou novamente. Dessa vez, ele pegou o telefone. Dessa vez, ele ligou no dia seguinte. A menina parecia gente boa - sabe como é, enquanto elas ainda não têm "posse" sobre eles, sempre fingem ser gente boa, depois é que elas ficam loucas, todas, sem exceção - E eles saíram mais umas outras vezes. A menina era realmente legal. Essa terceira - que não tinha entrado na história - era uma daquelas garotas que tiveram o coração partido também e veem em um novo encontro a chance de finalmente encontrar o amor. Como muitas solteiras, saia com esperança de que encontrasse alguém legal, alguém disposto a começar algo legal..alguém que ligasse no dia seguinte. E ele ligou. E tudo parecia bem...

Até que a primeira, aquela, a louca, percebeu que estava perdendo. E então surgiu o espírito competitivo, ela não precisava mais mostrar a ele quem estava perdendo, ela precisava NÃO perdê-lo. E o script mudou - a senhora-bem- resolvida virou a madalena-arrependida, esqueceu-se do orgulho, voltou atrás, disse que sofreu, sentiu falta, "A gente se ama, tudo que vivemos não pode terminar com uma briguinha qualquer", surpreendentemente ela conseguiu ver com clareza aquilo que ele tinha visto desde o princípio. "Ela mudou, está mais calma, arrependida, eu também vacilei.. tem razão, devemos tentar...."

Eles voltaram. Ela não mudou. Nem ele. Por um tempo, tudo parece bem. Mas é só uma questão de tempo. Sabe-se lá até quando eles vão resistir.. o teatro continua. Sempre continua. Declarações, fotos, recados de amor.

E a terceira? Aquela que não tinha entrado na história? Pois é, ele não respondeu mais às mensagens, não ligou mais.. era lacônicos nas respostas, ele nem se deu ao trabalho de inventar uma desculpa qualquer e um dia ela se deparou com um "em relacionamento sério" na sua timeline. E até hoje ela se pergunta o que fez de errado, qual era o seu problema? Remendou os cacos do seu coração novamente e tenta continuar, tenta não desistir, embora já tenha desistido....

Bem, Leitor, pode não ser poético, pode não ser motivador, mas este é o final que eu tanto conheço. E aposto que você conhece também,  que já viu milhares de histórias assim. Muito mais do que o da outra crônica. E agora está aí, se perguntando, qual é o seu papel nessa história...


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